quinta-feira, 21 de maio de 2009

QUEM MATOU SAMORA MACHAEL

Durante 22 anos neste pa�s ensinaram-nos a pensar que quem matou Samora Machel foi o regime do apartheid sul-africano. Outro clube tentou impingir-nos a ideia de que quem matou Samora foram cobardes internos, numa conspira��o confidencial bem montada; preparada e executada ao pormenor...


Agora aparece-nos este senhor a desmentir categoricamente as duas vers�es, e dizendo de um jeito quase c�mico, mas real, que foi a bebedeira a bordo do Tupolev 134 que matou Samora. Naquele fat�dico dia os pilotos russos beberam tanto Vodka que confundiram a forma��o montanhosa dos Libombos com a pista de Maputo...

Bob Marley tinha raz�o, � melhor fumar erva do que beber �lcool...

Saiba tudo no documento transcrito a seguir:

ACIDENTE DE MBUZINI

S�rgio Vieira Ordenou Pilotos da LAM a "Manterem-se Calados"

Lu�s Brito Dias *

Li com muita aten��o as declara��es do Sr. S�rgio Vieira a respeito do desastre de Mbuzini (jornal O Pa�s, 15 de Agosto de 2008), assunto que me interessa sobremaneira, pois trabalhei em Mo�ambique como piloto da DETA /LAM durante 17 anos. Presentemente trabalho no Extremo Oriente como comandante de uma transportadora a�rea, pilotando avi�es do tipo Boeing 747-400.

� evidente que o Sr. S�rgio Vieira mente descaradamente pois ele era na altura do acidente o Ministro da Seguran�a, portanto com responsabilidade no que veio a acontecer. Samora teve uma morte ingl�ria e claro que ele tamb�m foi o respons�vel pelo que aconteceu pois entregou a sua pr�pria vida nas m�os de pilotos que revelaram desleixo, neglig�ncia e inc�ria.

Todos os pilotos que voavam na LAM na altura sabem perfeitamente que o acidente de Mbuzini deveu-se a neglig�ncia e inc�ria por parte da tripula��o t�cnica. Ali�s, ap�s o acidente, o Sr. S�rgio Vieira fez chegar aos pilotos da LAM a mensagem, tipo amea�a bem clara, para se manterem calados e n�o abrirem a boca. Foi por essa raz�o que nenhum Comandante foi nomeado para fazer parte da comiss�o de inqu�rito. O �nico que foi nomeado foi um co-piloto da LAM, que tinha sido da For�a A�rea e era membro do Partido Frelimo, e por isso facilmente control�vel. Este co-piloto come�ou a ver a nojeira que era a Comiss�o de Inqu�rito e arranjou maneira de se baldar rapidamente pois em consci�ncia n�o podia participar na deturpa��o da verdade.

Os pilotos sovi�ticos al�m de terem pouca experi�ncia, voavam muito pouco e as licen�as de voo que foram apresentadas no inqu�rito s�o falsas. Foram emitidas posteriormente.

Na altura eu era co-piloto do DC-10 da LAM, e num voo de Lisboa para Maputo, juntamente com o Comandante, demonstr�mos a Mariano Matsinhe e a outro ministro da Frelimo que seguiam a bordo, o que realmente tinha acontecido. Eles foram nossos convidados no cockpit. At� fizemos a viragem ou mudan�a de rumo inicial, bem como a manipula��o errada dos selectores de instrumentos de navega��o para lhes mostrar o que se passara na noite no desastre de Mbuzini.

Para al�m de n�o trazerem combust�vel de reserva o que aconteceu foi que dos 5 tripulantes no cockpit, 3 estavam entretidos a dividir e a tomar os restos das bebidas alco�licas que iriam sobejar at� 6 minutos antes do impacto final. S� o co-piloto e o navegador � que estavam a tomar "conta" do voo. Tudo isto est� registado na transcri��o do CVR (Cockpit Voice Recorder).

O Comandante s� se apercebeu que estavam perdidos 3 minutos antes do impacto final. A desorienta��o era tal que nem ligaram nenhuma ao aviso sonoro (GPWS) que o avi�o ia bater no ch�o sem estar na configura��o de aterragem. Quebraram muitas regras b�sicas de "ouro" da avia��o, mas a mais importante foi terem chegado � "Altitude de Seguran�a", publicada para Maputo, que � de 3 000 p�s, e continuarem a descer sem terem contacto visual com o solo ou, em alternativa, indica��o electr�nica correcta dos equipamentos de navega��o de Maputo. Neste caso, o ILS ou o VOR de Maputo.

O que sucedeu foi que eles em vez de seleccionarem o ILS de Maputo (110.3) enganaram-se e seleccionaram o VOR de Matsapa (112.3) e desviaram-se de rota para a Radial 045 de Matsapa em vez de estarem na Radial 045 do VOR de Maputo. O navegador do Tupolev enganou-se, pois no sistema russo quem selecciona as r�dio-ajudas s�o os navegadores e n�o os pilotos. Ele j� vinha com o VOR de Maputo seleccionado (112.7), mas ao mudar de frequ�ncia para o ILS de Maputo (110.3) que � uma r�dio-ajuda de aproxima��o � pista e n�o de navega��o em rota, cometeu o erro fatal.

Os selectores dos d�gitos decimais s�o independentes dos d�gitos das centenas. Ou seja, primeiro teria que mudar de 112 para 110 e depois de 0.7 para 0.3 com um selector independente. O que aconteceu foi que ele deixou ficar o 112 e s� alterou de 0.7 para 0.3 o que veio a coincidir com a frequ�ncia do VOR de Matsapa.

Foi esta manipula��o errada de sistemas que levou a tripula��o a fazer uma viragem de rota. Como estavam "distra�dos" no cockpit n�o houve ningu�m que verificasse as manipula��es dos selectores de frequ�ncia. Uma das regras b�sicas � que sempre que se muda qualquer coisa no cockpit essa ac��o tem que ser verificada e aceite pelo outro piloto. Nada disso foi feito.

Estas foram as causas imediatas do acidente, mas houve outros factores que tamb�m contribu�ram, tais como a fadiga da tripula��o, a falta de combust�vel, a inactividade prolongada da tripula��o, a falta de verifica��es de simulador de voo, etc.

Um acidente de avia��o nunca acontece por si s�. � sempre um acumular de eventos que v�o culminar num fim tr�gico. N�o querendo ser arrogante, mas a minha experi�ncia de 31 anos de avia��o bem como a participa��o em inqu�ritos de acidentes aeron�uticos deixam-me perfeitamente � vontade para falar destas situa��es.

Depois de tantos anos de poder do ANC na �frica do Sul, e apesar de muita investiga��o por parte das novas autoridades sul-africanas, quer a n�vel da Comiss�o da Verdade e da Reconcilia��o, quer a n�vel da pol�cia mandatada pelo Presidente Thabo Mbeki h� mais de dois anos, n�o foi encontrado qualquer vest�gio de tentativa de interfer�ncia no voo por parte das autoridades sul-africanas do anterior regime. As teorias conspiracionistas voltaram-se ent�o para supostos mentores internos, o que � muito duvidoso e sem cabimento. Os factos falam por si...

* Ex-piloto da DETA/LAM. Presentemente � comandante de aeronaves B-747 400 ao servi�o duma transportadora do Extremo Oriente

Extra�do do ZAMBEZE - Maputo, 28 de AGOSTO de 2008 p 2


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