Como barreirense, como v� a queda a pique do Futebol Clube Barreirense, desde a Liga de Honra at� �s distritais?
Francisco Cercas, Barreiro
- Mea culpa, mea culpa porque ainda assisti a alguma reuni�es, leia-se assembleias gerais, onde se definiu conceder o poder ao presidente para a venda do campo. Estive presente e penso que foi realmente a machadada final no clube. E h� v�rios culpados! Em princ�pio, a massa associativa do clube, mas o meu Barreirense... J� n�o est�o vivos aqueles que sentiam e impediam situa��es destas. Estas novas gera��es t�m vis�es totalmente diferentes do que � verdadeiramente o associativismo. Mas penso que esta comiss�o administrativa est� altamente preocupada com o assunto. Tem uma palavra a dizer sobre aquilo que o presidente do clube fez, que, para mim, considero intencional.
Na sua juventude, quem era o seu modelo futebol�stico e porqu�?
Jos� Ferreira, Lisboa
- Voc� sabe que eu sou de uma terra que � talvez a maior no que diz respeito ao poder associativo em Portugal. E � tamb�m o terceiro concelho mais pequeno, muito embora tenha 120.000 habitantes. E o Barreiro foi tamb�m um alfobre, uma col�nia de futebolistas, sobretudo dos clubes de Lisboa. Tinha por todos os jogadores que eram do Barreiro um orgulho bastante grande mas aquele que mais me marcou foi, sem d�vida, o Carlos Gomes. Temos uma diferen�a de cinco anos e eu via o Carlos Gomes no Liceu, no Barreiro, no campo onde eu comecei a dar os primeiros pontap�s. O Carlos Gomes j� l� estava a jogar na baliza. Os marcos eram duas pedras... E ele j� era um guarda-redes extraordin�rio. Depois come�ou a jogar nos juniores do Barreirense... Foi um jogador que eu acompanhei de perto, e que passou ao lado de uma grande carreira, por quem eu tinha e tenho uma grande admira��o.
- Qual foi o colega de profiss�o que mais o marcou?
Tiago Correia, Amadora
- Germano. Germano Figueiredo. N�s, atrav�s da Selec��o Nacional e antes no Benfica, cri�mos uma empatia muito forte, muito embora, enfim, de uma certa forma, eu possa dizer todos os colegas, de uma maneira geral. O Jos� Torres. �ramos uns brincalh�es, os dois, a fazer partidas aos colegas. O Jos� �guas, o �ngelo, o Costa Pereira. Havia uma amizade muito grande, mas aquele que me marcou mais foi o Germano e talvez eu tamb�m o tenha marcado bastante porque... Ele morreu a gritar por mim, a chamar por mim. Foi-me dito pela senhora que vivia com ele. � uma recorda��o que me atormenta um bocado porque n�o pude l� estar.
- O que sentiu quando foi considerado o melhor extremo-direito da Europa? E j� agora, quem � para si o melhor da actualidade?
Pedro Faria, Entroncamento
- Senti que n�o era f�cil sermos considerados os melhores pelos franceses, que s�o um tanto ou quanto chauvinistas. Naquela altura, haver um franc�s que considerasse um portugu�s o melhor extremo-direito da Europa... Ali�s, o Gabriel Hanot foi o homem que implantou a Ta�a dos Campe�es Europeus, atrav�s do jornal "L'�quipe" e da "France Football". Senti orgulho mas estamos a falar em �pocas onde n�o havia o mediatismo que h� hoje. A coisa foi divulgada, mas de uma forma natural, sem pompa nem circunst�ncia. Neste momento, o melhor extremo-direito chama-se Messi.
- Qual � o jogador que actualmente mais se assemelha � sua forma de jogar no seu tempo?
Pedro Franco, Algueir�o
- O que mais se assemelhava era o Lu�s Figo mas o Messi tem coisas que eu tamb�m desempenhava, com uma vantagem minha, porque jogava bem de cabe�a. Mas ele j� marcou um grande golo de cabe�a e marcou-o num impulso de correc��o e de cabeceamento como manda a lei, apesar da sua baixa estatura.
- Confirma que teve propostas milion�rias de It�lia e Espanha e que s� n�o saiu do Benfica porque a ditadura assim n�o o permitiu?
Manuel Rocha, Leiria
- A ditadura n�o me permitiu, n�o! A mim ningu�m me impedia de sair. Durante a campanha da Ta�a dos Campe�es Europeus, o secret�rio-geral do Real Madrid, Emil Oestreicher, que era contempor�neo do B�la Guttmann, ambos austro-h�ngaros, jogaram nas selec��es da It�lia e da �ustria, conviveram na Am�rica, perguntou-me se eu estava interessado em ir para o Real Madrid. Eu disse-lhe que sim, claro, mas o B�la Guttmann, pela amizade que tinham, disse-lhe a ele: "Quando eu sair do Benfica ent�o trata disso." O que � certo � que o Oestreicher saiu primeiro do Real Madrid que o B�la Guttmann do Benfica e a coisa morreu ali. Mas o primeiro convite que tive foi da Fiorentina, quando, em Floren�a, disput�mos um encontro a n�vel da equipa militar de futebol. Estava na tropa na altura, n�o era f�cil pedir o adiamento... Foram os �nicos convites que tive a n�vel internacional.
- Perante os constantes casos e pol�micas, n�o s� no nosso futebol mas no estrangeiro, de corrup��o na arbitragem e de manipula��o de jogos, qual seria, segundo a sua vis�o de tantos e largos anos, a solu��o para estes crimes que ferem a verdade desportiva?
Ricardo Miranda, S�o Marcos
- � muito dif�cil poder dizer qual seria a solu��o porque a solu��o ainda n�o foi encontrada. Mesmo que se encontrasse a solu��o, todas estas situa��es n�o deixariam de continuar a existir.
- Gostava de saber se se sente reconhecido pelo seu trabalho tanto no Benfica como na Selec��o, ou se, pelo contr�rio, se sente esquecido.
Rui Sampaio, Parede
- N�o, n�o me sinto esquecido. Nunca me ofereci a ningu�m. Os grandes jogadores, passe a imod�stia, est�o consagrados, de uma certa forma. Se um dia voltar novamente a treinar, e � poss�vel que sim - nunca digas nunca - demonstrarei que a idade n�o conta. O que conta � a experi�ncia e a capacidade de liderar.
- Diga-nos o que nunca ningu�m disse: um defeito de Eus�bio.
Carlos Carneiro, Lisboa
O grande defeito que o Eus�bio tinha era querer jogar mesmo que estivesse lesionado. E jogava!
- Nos tempos de agora, com tanto rigor t�ctico, Eus�bio seria na mesma considerado dos melhores do Mundo?
Jo�o Leal, Vila Nova de Gaia
- O Eus�bio, com estas bolas de agora, que s�o feitas de uma massa qualquer que n�o sabemos qual �, marcava o dobro dos golos que marcou.
- Qual o melhor jogador com quem jogou, como colega de equipa? E o melhor advers�rio que defrontou?
Bruno Rodrigues, Porto
- Defrontei advers�rios valiosos e poderosos. Pel�, Garrincha, Zito, Nilton Santos, Djalma Santos, Bellini, Schnellinger. O Hil�rio... Como colegas de equipa, todos eles foram importantes, at� os menos tecnicistas, os que carregavam o piano, como por exemplo o Neto, o Cav�m... Esses n�o podem ser esquecidos, apesar de menos vistosos. Mas claro que o Eus�bio, o Sim�es, o Jos� �guas, o Torres e o Coluna, que foi um monstro... Para mim, de todos os jogadores, aquele que eu mais considerei, como adepto e depois como praticante, cheguei a defront�-lo: Alfredo di St�fano.
- Qual o momento mais dram�tico, que o deixou com mais m�goa, ao longo da sua carreira?
Gon�alo Silva, Vila das Aves
- Foi no dia em que morreu o meu colega Luciano no est�dio da Luz [5 de Dezembro de 1966, exactamente 43 anos antes da entrevista de Jos� Augusto ao Record Online]. Foi o dia mais triste da minha vida desportiva.
- O que pensa que mudou no mundo do futebol, da sua �poca para esta?
�ngelo Miranda, Seixal
- Mudou muita coisa, sobretudo as SAD. Foi uma forma de se poderem criar situa��es econ�micas que aguentassem os clubes mas nem todos tiveram essa sorte. S�o novas formas de economia, embora entre dois economistas haja sempre tr�s opini�es. Um economista tem de ser bastante imaginativo e criativo, com grande capacidade. Como o caso do administrador do Benfica [Domingos Soares de Oliveira], que tem uma capacidade diferente e que tem feito um trabalho bastante positivo. Hoje em dia, ser sportinguista ou ser portista... O que � certo � que a gente n�o v� no Sporting ningu�m do Benfica a trabalhar. E no Porto muito menos. Mas isso n�o influi no profissionalismo das pessoas. Temos de dar o benef�cio da d�vida e aqui n�o tenho d�vida absolutamente nenhuma. Os pr�prios jogadores... Perderam-se valores bastante significativos e isso � que � pena. N�o s� no futebol... Para quem viveu 72 anos como eu j� vivi. Aos 8 anos ia para as bichas do racionamento... (risos) Mas tenho um pouco o conhecimento da vida e posso dizer com uma certa propriedade tudo aquilo que se passa. E que se passou.
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